A review abaixo é do game Heavy Rain feita pelo leitor Matheus Pitillo:

Heavy Rain – The Origami Killer

How far will you go for someone you love?

Lançamento: 23 de Fevereiro, 2010
Desenvolvedora: Quantic Dreams
Distribuidora: SCEA
Plataforma: PlayStation 3

Talvez o sentimento mais forte que o ser humano possui até hoje seja o amor. Mas independente de sua definição, nós nos pegamos questionando o que de fato surge, se cria e renasce de algo tão poderoso como isso. O que seria o amor? Ou ainda mais: o que você faria por amor? Heavy Rain questiona exatamente isso: “Até onde você iria para salvar alguém que você ama?”. E a resposta, por mais conturbada e diferente que seja, de jogador para jogador é: Everything I did, I did it for Love (Tudo que eu fiz, eu fiz por amor).

Heavy Rain, o segundo jogo exclusivo da plataforma PlayStation 3 em 2010, desenvolvido pelo estúdio Quantic Dream, trata-se exatamente de um conceito novo nos games, que acontece através de escolhas. Se há uma forma de resumir tudo é dizendo que cada escolha que você fizer dentro do jogo irá acarretar em conseqüências que você deverá controlar pelo resto da história, nas quais são feitas guiadas pela carga de emoção que você suga de cada personagem.

Em Heavy Rain você se vê no controle de quatro histórias diferentes. Quatro personagens, vidas e sentimentos distintos que, de certa forma, acabam por se unir em um trama central: O Assassino do Origami. Imagine-se conhecendo a vida de cada um dos quatro personagens do jogo. Conhecendo seus ideais, suas maneiras de agir, suas formas de interpretar as coisas e, além de tudo, o amor que esses têm pela sua vida e pela vida do próximo ente querido. Agora pegue esse cotidiano pessoal e remova o que possa ser a coisa mais importante da sua vida de dentro dele. Arraste, afunde com ele para um lugar desconhecido. O que resta então? Em alguns casos, para algumas pessoas, mais nada. Um “nada” o suficiente para encarar de tudo e recuperar de volta o que você mais ama.

Controlamos quatro personagens no jogo, cada qual com suas qualidades e defeitos. David Cage conseguiu transparecer uma dose de emoção muito grande para cada personagem, o que acaba tornando-os únicos. O antigo conceito de herói e anti-héroi perfeito, que existem em muitos jogos, acaba caindo por terra em Heavy Rain. E essa capacidade de tornar personagens de vídeo games tão humanos como nós – os próprios jogadores – faz com que a história pareça ainda mais real e sensível.

Ethan Mars, talvez o protagonista de toda essa história, é um pai de família, arquiteto, casado e que possui dois filhos. Sua vida poderia ser vista como uma vida sem defeitos, até que um primeiro incidente acontece e Ethan testemunha a morte de um dos seus filhos. As coisas começam a mudar drasticamente, o sentimento de culpa reina sobre o rapaz, no qual faz com que sua vida pareça cada vez mais sem sentido. E quando tudo parece não ter como piorar, o segundo filho do rapaz é levado pelo Assassino do Origami e é aí que toda a história do jogo realmente começa a se deslanchar.

Scott Shelby é um detetive particular que investiga os crimes cometidos pelo Assassino do Origami. Assim como todos os outros personagens, Shelby também possui um problema físico, o que no seu caso é a asma. Mesmo vestindo-se de uma aparência de detetive durão, nós também conseguimos observar um sentimento de atenção e carinho dele com seus clientes – os pais das vítimas assassinadas – o que nos passa durante boa parte do jogo um alto grau de segurança pela personagem.

Norman Jayden é um agente do FBI que acaba sendo escalado para investigar o caso do Assassino do Origami. Logo no início percebemos que o seu “problema” principal é a dependência de uma droga – conhecida como Triptocaína – o que acabará sendo um conflito físico e psicológico durante toda a história do jogo.

Madison Paige é uma jornalista fotógrafa que acaba também se atraindo aos casos do Assassino do Origami, para conseguir mais dados para sua matéria. Mas muito além disso, se encontra envolvida sentimentalmente pelo pai da última vítima seqüestrada: Ethan Mars. Madison sofre de insônia, o que faz com que ela passe as suas noites em quartos de motéis para tentar conseguir se controlar.

De modo geral, Heavy Rain conta a história de uma série de assassinatos que estão acontecendo em uma mesma região de uma determinada cidade. Todos os crimes são contra crianças e, possuem as mesmas características, provando ser um assassino que segue uma lógica fixa e calculada, seguindo o padrão de em cada ato matar a criança por afogamento e deixar um origami na mão da vítima e orquídeas no seu peito.

As histórias das quatro personagens se unem no momento em que o filho de Ethan Mars desaparece, tudo indicando que isso foi mais uma obra do Assassino do Origami. Ethan inicialmente busca a ajuda da polícia, o que envolve o agente do FBI Norman Jayden nessa investigação também. Enquanto Scott Shelby, o detetive particular, busca por outras pistas com as famílias das vítimas antigas. E por fim, Madison Paige, uma jornalista, acaba tentando procurar dados para sua matéria e também se envolvendo emocionalmente com a causa de Ethan.

Seguindo uma linha cinematográfica, o jogo é narrado com intensos diálogos, ações e conseqüências. Sendo assim, pela grande maioria, Heavy Rain acaba sendo conhecido quase como um filme interativo. Ou em outras palavras, uma imensa cutscene que o jogador interage através de QTE – Quick Time Events – enquanto decide o destino de cada personagem.

De início o jogo segue em um fluxo mais devagar, ou até mesmo tedioso. Porém, tudo isso é claramente justificável no decorrer do jogo, já que a idéia o tempo inteiro é a de relacionar as personagens com o próprio íntimo do jogador, criando um laço de atenção e sensibilidade muito maior. Para assim, nas próximas cenas, nós podermos sentir ainda mais a dor ou felicidade de cada um deles. E quando o jogador percebe, ele já está seguindo uma seqüência muito forte e constante de adrenalina e de cenas que realmente te prendem do início ao fim. O que, por outro lado, pode acabar desagradando alguns, já que o jogo – assim como a grande maioria dos exclusivos da atualidade – tem uma média de aproximadamente 9 à 12 horas de duração, que são divididas em um total de 60 capítulos diferentes – o que irá variar em sua quantidade, de acordo com as escolhas dos jogadores, aumentando muito o fator replay.

Se tratando da jogabilidade do game, ela varia em movimentação da personagem, na qual é feita através do botão R2; leitura dos pensamentos da personagem, através do botão L2; interação com os objetos da cena; e, por fim e mais freqüente, a inovação está nos QTE que variam desde somatórias de botões pressionados, até em repetições aceleradas de botões e seqüências individuais dos mesmos.

Em relação aos gráficos nós nos deparemos com um universo muito bem detalhado. Desde a direção de arte até a iluminação de cada cena do jogo, é extremamente bem feito, criando totalmente a impressão de uma história noir e de suspense do começo ao fim. A expressão facial das personagens surpreende novamente, deixando o game Heavenly Sword no chinelo – que até então, na minha opinião, possuía um dos melhores gráficos nesse requisito – unindo-se com os cenários, objetos, vestimentas muito bem detalhadas etc. Porém, temos que destacar que ao mesmo tempo que o jogo possui gráficos espetaculares, ele também consegue pecar tristemente em alguns poucos objetos de cena. Ao ponto de ficar notável o erro da Quantic Dreams em não dar atenção em pequenos objetos secundários. Mas nada que desagrade ao visual final do jogo, já que são poucos os casos em que isso ocorre.

Apesar de eu particularmente encarar Heavy Rain como uma obra espetacular ao todo, para mim os maiores destaques ficam em dois aspectos em especial: o Roteiro e o Som. É incrível como o jogo consegue te prender do início ao fim. Você não consegue largar do controle até entender porque tudo acontece dessa maneira. Porque tanta dor, porque tanta maldade e principalmente, se as suas escolhas foram as melhores possíveis naquela situação. O roteiro possui uma dose de mistério e suspense que vai se revelando pouco a pouco, lhe dando a “verdadeira resposta” apenas no fim. E quando isso acontece você realmente percebe que isso sim é uma grande história.

Cada ponto chave é justificado tão bem que consegue te convencer até dos maiores absurdos que você não esperaria. Mas a história consegue ficar tão convincente, de forma tão natural, porque foi casada perfeitamente com o Som e a Trilha Sonora que o jogo possui. Cada dublagem foi feita impecavelmente. Perco as contas da quantidade de vezes que me emocionei quando ouvia a risada gostosa dos filhos da personagem Ethan. Ou até mesmo quando o próprio Ethan se lamentava e se punia pelas suas próprias dores, reunindo um misto de lamentação e gritos de dor. E ao fundo, como se já não bastasse, nos deparamos com uma trilha sonora ambiente muito intensa e melancólica. Cada cena foi muito bem selecionada para cada som. E cada diálogo muito bem interpretado por cada ator.

Em resumo, Heavy Rain te transporta para um universo no qual as suas escolhas que irão determinar a continuidade do fluxo de acontecimentos. Seu critério de avaliação das situações que irão dizer o que é certo e errado, ou o que, em seu ponto de vista, deveria ser o correto. E de acordo com a sua bagagem de emoções, você poderá conhecer a força de cada personagem diante de cada situação.

Heavy Rain não é um jogo comum. Ele está muito além disso. Ele é como a vida de algumas pessoas reais dentro de uma tela de televisão. E quem dirá o destino de cada uma dessas pessoas é você, o jogador. Tendo sempre em mente que você acaba se tornando responsável por cada mínima escolha que você fizer, seja por bem ou por mal. Mas afinal, até onde você iria para salvar alguém que você ama?

Nota do Leitor: 9,5

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