Esta review foi enviada pelo leitor Fabiano Gelain – RyuRanX para o 1º Concurso de Reviews do Planeta Gamer.
Outcast
Dolotai kez Okaar
Miléa ko Gandahar
Todar Fae barr Sankra
Lepta mae Yod Gandha
Gwarta koi maré gwar
Labta Ulukai afar
Ogaé kez Adelpha
Kata mae Yod Gandha
- Antiga canção dos mineiros de Motazaar
Ficha Técnica
Produtora: Appel
Publicadora: Infogrames
Plataforma: PC
Data de Lançamento: 31/07/1999
Gênero: Ação-Aventura
Modos de Jogo: 1 Jogador
Mídia: 2 CD-ROMs, 1 DVD
Requisitos do Sistema: CPU de 200mhz, 32mb de memória RAM, placa de vídeo de 2mb, 600mb de espaço em disco, Windows 95.
Introdução
O final dos anos 90 foi um momento marcante na história dos jogos para PC. Não apenas atravessamos uma grande mudança tecnológica causada pela popularização das placas aceleradoras de vídeo, mas nos divertimos com muitos clássicos lançados naquele período, como por exemplo, System Shock 2, Quake III: Arena, Jagged Alliance 2, Planescape: Torment, Unreal Tournament, Commandos, Rainbow Six: Rogue Spear, The Legacy of Kain: Soul Reaver, Heroes of Might and Magic III, Might and Magic VII: For Blood and Honor, Carmageddon 2, dentre tantos outros. Um destes grandes jogos ficou esquecido no tempo. Outcast não fez o sucesso esperado em seu lançamento, apesar de ter sido um título impecável em todos os quesitos. Mas o que poderia ter causado este insucesso? Talvez Outcast tenha sido ofuscado pelo lançamento de vários jogos conhecidos naquele mesmo ano, vindos de produtoras tradicionais. O fato do jogo exigir uma máquina que poucos tinham naquela época também poderia ter contribuído. Felizmente, Outcast ainda é lembrado por muitos fãs, que nestes onze anos ainda sonham em vestir a camiseta laranja e retornar à Adelpha.
Enredo
Em 2007, o governo americano enviou uma sonda destinada a trazer provas da existência de um universo paralelo. A experiência obteve sucesso e imagens do novo mundo chegaram a Terra. Alguns minutos depois, uma forma de vida alienígena atacou e destruiu a sonda, causando um lapso de energia que deu origem a um pequeno buraco-negro, ameaçando toda a existência humana. Após o incidente, Cutter Slade, ex-fuzileiro da marinha americana é eleito para escoltar três cientistas à outra dimensão, com a missão de recuperar a sonda e fechar o buraco-negro. Ao despertar sem seus companheiros no outro lado, Cutter se depara com uma raça alienígena inteligente chamada Talan. Os Talans acreditam que o Cutter Slade é Ulukai, seu grande messias, que reunirá os cinco Mons sagrados, derrotará o ditador Fae Rhan e salvará Adelpha. Separado de seus amigos, sem seu equipamento e não tendo conhecimento desta estranha existência, Cutter Slade decide procurar pelos Mons enquanto os Guardiões Dolotai, um grupo de Talans que se opõe à Fae Rhan, prometem procurar pela sonda e pelos três cientistas.
O jogo possui muitas reviravoltas e surpresas no enredo. Adelpha é um mundo vivo, onde todos os elementos são explicados. O método de salvamento do jogo, o motivo dos Talans falarem inglês, enfim, tudo tem um motivo para existir, aumentando ainda mais o fascínio e a imersividade do jogador. Além disso, existem diversos personagens memoráveis, cada qual com sua personalidade, seus valores e sua opinião sobre o Ulukai e Fae Rhan.
Personagens
Cutter Slade:
Cutter é um ex-fuzileiro da marinha, convocado pelo governo Americano para escoltar três cientistas na busca pela sonda perdida. Ao chegar a Adelpha, é aclamado como o messias Ulukai, enviado pelos Yods (deuses) para salvar o povo Talan, como proferido pelo profeta Kazaar há milhares de luas. Cutter é extremamente carismático e sempre fala com um tom sarcástico, tornando-o um dos protagonistas mais carismáticos e inesquecíveis de todos os tempos.
Marion Wolfe:
Marion é uma pesquisadora na área da Bio-Etnologia e filha de uma poderosa senadora. Conheceu Cutter Slade em um treinamento de paraquedismo que resultou em uma tragédia, a morte de um fotógrafo. Marion teve sua parte de culpa no acidente, mas a senadora fez de tudo para condenar Cutter Slade. Por este motivo, Marion não fala mais com sua mãe e sente que deve algo à Slade, o que motivou sua participação na missão, além do seu amplo conhecimento na área de Exobiologia.
William Kauffman:
William serviu como médico na guerra do Vietnam e recebeu o prêmio Nobel de Ciências por suas teorias sobre as “Super Cordas”. Foi abordado pelos militares, que propuseram o financiamento de suas idéias caso trabalhasse com gênio Anthony Xue. William e Anthony nunca se deram bem, mas necessitaram um do outro para completar o ambicioso projeto.
Anthony Xue:
A especialidade de Xue é o campo da ciência que estuda a anti-matéria. É considerado irresponsável e odiado pela comunidade científica, pois causou a morte de onze companheiros durante um experimento com matéria e anti-matéria. Assim como William, foi contratado pelo exército americano com o objetivo de provar a existência de um universo paralelo.
Jogabilidade
A jogabilidade pode ser divida em três partes principais: o sistema de combate, os diálogos e a exploração, e a resolução de quebra-cabeças e missões. O sistema de combate é bem simples, porém efetivo. O princípio funciona praticamente como o “iron sight” dos jogos de tiro em primeira pessoa atuais. Com o botão secundário do mouse, Cutter mira com auxílio de um feixe de laser vermelho, e com o botão primário, dispara a arma. A mecânica serve tanto para o modo padrão em terceira pessoa quanto para a câmera alternativa em primeira pessoa. Existem diversas armas, cada qual com sua utilidade. Temos a pistola padrão, a HKP-12, além das variantes para submetralhadora, morteiro, lança-mísseis, lança-chamas e rifle de precisão. Todas as armas podem ser melhoradas com módulos vendidos por comerciantes que encontraram os objetos “sagrados”, perdidos pelo Ulukai em sua chegada à Adelpha. Também contamos com diversos outros itens especiais, que em conjunto com as armas, podem facilitar algumas sequências e até salvar a vida de nosso protagonista. Dentre estes, temos a invisibilidade para passar despercebido pelos inimigos, a imagem holográfica que pode ser usada como distração, a dinamite para explodir um grupo de oponentes, dentre outros.
Os inimigos normalmente são animais da fauna de Adelpha ou soldados de Fae Rhan. A inteligência artificial dos animais é bem básica, mas a dos soldados chega a impressionar até para os padrões atuais em determinadas situações. Normalmente estes soldados avançam em grupo, com armas poderosas, utilizando o cenário como vantagem para atacar e se defender. A exploração é dada através de uma navegadora eletrônica que detecta e informa todos os itens e formas de energia que se encontram nas proximidades de Ulukai, além de disponibilizar um mini-mapa quando o visor está ativo. Outro instrumento de auxílio é o binóculo, que além de providenciar uma visão de longo alcance, possui um sensor de raios-X que permite enxergar através de materiais sólidos. Cada uma das cinco regiões de Adelpha é consideravelmente grande e livre para exploração, podendo ser acessadas a qualquer momento através dos Daokas, os portais como são chamados na língua nativa.
A busca por informações é fundamental em Outcast. Neste jogo, os diálogos são tão importantes quanto em um RPG tradicional. É através da conversação com os Talans que descobrimos nossos objetivos, como encontrar alguém, onde fica determinado local, além de providenciar diversas informações sobre cultura, religião, política e vida pessoal. Vários destes diálogos são muito engraçados devido à natureza sarcástica do protagonista. O jogo também possui uma atmosfera muito envolvente, onde cada Talan cumpre seus afazeres e vive sua vida de uma maneira única. Por causa desta movimentação constante, precisamos perguntar para qualquer um onde encontrar determinado personagem. Caso esteja no campo de visão do questionado, ele simplesmente aponta para o alvo, senão diz onde o viu pela última vez.
O objetivo principal do protagonista é encontrar a sonda e os cinco Mons sagrados, mas o jogo não se resume à missão principal. O Ulukai também precisa convencer os Talans a se voltarem contra seu ditador. Através da ajuda espontânea, precisamos gradativamente convencer os nativos que somos de fato seu messias. Neste sentido Outcast lembra muito o clássico Shenmue da Sega, pois encontramos situações naturais onde nossa interferência pode causar um grande impacto nos olhos dos outros habitantes de Adelpha. Outra meta importante é convencer os líderes de cada região a cortar os suprimentos que são enviados ao exército de Fae Rhan. Os soldados ficam mais fracos quanto não sem comida, armas, dinheiro e mantimentos para lutar. Todos estes três fundamentos da jogabilidade estão juntos, entrelaçados, tornando Outcast uma experiência única e completa.
Gráficos
Hoje pode não parecer, mas Outcast teve um dos gráficos mais impressionantes na época de seu lançamento. De contrapartida a outros jogos lançados naquele período, a “engine” da Appeal é totalmente rodada em modo “software”, pelo processador, sem utilizar as placas de vídeo que já eram o padrão no final daquela década. O jogo impressionou pelo tamanho dos cenários, pela quantidade de detalhes e pelo número de personagens exibidos na tela simultaneamente. Algumas técnicas gráficas estavam à frente de seu tempo, e só vieram a ser usadas anos depois. Por exemplo, todo o terreno é renderizado com voxels (pixels tridimensionais), criando um volume e detalhamento que nenhum outro jogo possuía. Tal técnica só foi reutilizada em Crysis, jogo lançado em 2007. Além deste, Oucast contava com efeitos que só tornaram-se padrão nestes últimos anos, como os conhecidos “Depth of Field”, “Bump-Mapping”, “Bloom”, “Anti-Aliasing”, sombras, reflexos na água e partículas volumétricas. Este também foi um dos pioneiros na captura de movimentos. Apesar de impressionar os olhos de um jogador de 1999, poucos foram aqueles que conseguiram rodar o jogo em toda sua plenitude. Isto pode ter influenciado as baixas vendas, que infelizmente fizeram com que a produtora fechasse suas portas durante o desenvolvimento de Outcast 2: The Lost Paradise.
Efeitos Sonoros e Música
O campo sonoro é um dos grandes destaques de Outcast. A maioria dos efeitos utilizados no jogo é única, com personalidade, transmitindo veracidade no descobrimento deste mundo alienígena. Os atores de voz também fizeram um excelente trabalho, dando vida a todas as personagens do jogo. Vale lembrar que esta também foi uma inovação introduzida por Outcast, pois nenhum outro jogo da época, com o mesmo volume de texto, conseguiu trazer todas as conversas dubladas. Mesmo com ótimos efeitos sonoros e dublagem, o maior destaque deste quesito são as músicas orquestradas, produzida por Lennie Moore e executadas pela Orquestra Sinfônica de Moscou. É impressionante como cada peça conseguiu transmitir exatamente o que estamos vendo no momento, fazendo-nos esquecer que estamos na frente do computador apenas nos divertindo com um jogo eletrônico.
Pontos Altos
• Gráficos à frente de seu tempo, trazendo alguns efeitos que só foram padronizados quase uma década após seu lançamento;
• Cenários imensos, com muitos detalhes visuais;
• Ambientação imersiva, onde sentimos que realmente estamos a explorar um novo mundo;
• Detalhe existencial, onde todos os elementos daquele universo possuem um motivo ou explicação para existir;
• Trilha sonora orquestrada de excelente qualidade;
• Efeitos sonoros inesquecíveis;
• Todos os diálogos são dublados em cinco línguas: inglês, alemão, italiano, francês e espanhol. Existem legendas para várias línguas, incluindo português do Brasil;
• Ótimo enredo, com muitas reviravoltas e surpresas;
• Senso de humor.
Pontos Baixos
• Os requerimentos de “hardware” eram muito altos na época do lançamento;
• É um pouco trabalhoso fazer o jogo funcionar em máquinas atuais. Além disso, a “engine” gráfica possui diversas limitações, como resolução máxima de apenas 640×480, sem suporte a monitores “widescreen”.
Curiosidades
• Na cidade de Okriana é possível ouvir um Talan tocando um dos temas de Guerra das Estrelas;
• Outcast 2: The Lost Paradise estava em desenvolvimento para PC e Playstation 2;
• O jogo foi lançado gratuitamente como brinde na edição 43 da revista PC Gamer Brasil;
• Uma versão em DVD foi lançada posteriormente, contendo “making-off”, papéis de parede e a trilha sonora remasterizada.
• Em 2010, Outcast foi relançado por distribuição digital na loja Good Old Games (GOG), contendo diversas correções para tornar o jogo compatível com Windows XP, Vista e Seven.
• Existe uma sequência em desenvolvimento por fãs chamada openOutcast. O jogo utiliza a famosa CryEngine 2 de Crysis.
Conclusão e Nota
Outcast foi uma experiência única, pois me transportou para outro mundo, onde aprendi outra língua e conheci outra cultura, com religião, política e costumes muito diferentes dos nossos. Por este motivo considero Outcast um dos dez melhores jogos de todos os tempos. Espero ter deixado muita gente com vontade e curiosidade de jogar, pois este foi o principal objetivo desta análise. Aos aventureiros que decidiram viajar para Adelpha, que os Yods fiquem silenciosos durante sua longa e divertida jornada.
Minha nota é 9,6.
















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